Assessorar a ciência: aquela aventura em produzir e traduzir a informação científica





Maricilene Baía

Doutoranda em Ciência Política no

Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília


Nem só de habilidades e competências em gestão organizacional e em relações interpessoais vive quem assessora pesquisadoras/es em ‘expedições científicas’. No entanto, é de se exaltar que tais habilidades e competências absorvidas em formações acadêmicas de áreas ligadas às organizações, a exemplo dos cursos de bacharelado e tecnológicos em Secretariado Executivo, são fatores que alavancam significativamente quem escolhe aventurar outros rumos, um tanto quanto não peculiares a essas áreas, como assessorar a produção de informação sistematizada (científica).


A história é longa, mas vou contar um pouquinho. Eu era aspirante à carreira científica no âmbito da atuação governamental; minha pretensão era somar à capacidade analítica do Estado na produção de políticas de governo. Nesta aventura, as habilidades em secretariado não eram suficientes às minhas pretensões futuras de carreira. Ainda restava conhecer o funcionamento e modelos de Estado, de governo, da economia, das relações e estrutura sociais, do processo de produção de políticas públicas, da estrutura burocrática do Estado, da democracia, etc. Além disso, era necessário saber fazer/produzir ciência (acredite, não é pouca coisa!). Para terminar a combinação rumo à carreira aspirada, era necessário, por certo, conseguir ‘entrar no Estado’. Eram desafios muito inspiradores, divertidos, mas árduos em sua trajetória.


Essa aventura eu já iniciei na formação em Secretariado Executivo: não deixei passarem despercebidas as disciplinas das Ciências Sociais – sobretudo Política e Sociologia. Foram muito bem-vindos também os momentos, às vezes confusos, com a Filosofia. Sorte a minha também que, na época da minha formação (2011-2014), estávamos vivendo o boom do movimento pela pesquisa científica em Secretariado no Brasil. Eu mergulhei junto (e de cabeça). Não posso deixar de citar o contato fundamental com a Estatística, área que me subsidiou, do ponto de vista técnico, a iniciar pesquisa científica. Na biblioteca, as muitas horas dedicadas de leitura sobre método científico, as leituras dos livros de Otávio Ianni (sociólogo brasileiro), não deixavam a aspiração morrer.


Não era suficiente debruçar-me sobre método. Meu orientador (cientista social sensacional), quando chegou a hora de ir mais fundo e dialogar com os debates ontológicos e epistemológicos sobre a firmação científica do Secretariado, presenteou-me com lições a mais: “você tem de saber o que é o conhecimento, como se constrói uma teoria, como o indivíduo conhece, constrói o conhecimento”. Foi quando me apresentou o construtivismo, o pragmatismo, entre outros legados. Misturei tudo isso com o ingresso no mestrado acadêmico em Ciência Política, e estou na trajetória do doutoramento na mesma área. Como é uma área muito transversal (atravessada pela economia, sociologia, antropologia, administração pública, entre outras, nos mais diversos temas que dizem respeito a nossa vida em sociedade), foi escolha bem acertada.


Aí chegou a hora de experimentar a combinação esperada. Assessorar cientificamente no âmbito do governo é uma responsabilidade muito grandiosa. O que você produz pode impactar a vida das pessoas em sociedade. Participei do Programa Cátedras Brasil como pesquisadora, no projeto “Capacidades estatais para a produção de políticas públicas”, que se estendeu também para o debate dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas no contexto brasileiro, em 2018, na Escola Nacional de Administração Pública (Enap). Meu papel era assessorar os coordenadores da pesquisa na indicação das melhores apresentações dos dados coletados, incluindo os métodos estatísticos mais adequados, e descobrir quais teorias mais conversavam com os resultados desses dados, principalmente para apontar as novidades das conclusões que dali seriam geradas quando do conhecimento já produzido nacional e internacionalmente. Modelos econométricos, estatística descritiva e analítica, habilidade em softwares estatísticos, estudos sobre políticas públicas, sobre burocracia estatal, e muitos outros conhecimentos a mais tínhamos que criativamente combinar para que produzíssemos conhecimento útil ao Governo Federal.


Entre as muitas heranças que carrego do Secretariado, algumas chamaram muita atenção dos coordenadores do projeto: além da capacidade de fazer pesquisa, de interpretar dados estatísticos, e de fazer análise crítica desses dados, conversando-os com outras pesquisas, a capacidade em comunicá-los, seja no discurso falado, seja na organização da apresentação estética dos dados, e, principalmente, na maneira como se portar ao público do alto escalão, foi crucial para representa-los em reuniões com o Governo, com as organizações representativas da classe política, a exemplo da Confederação Nacional dos Municípios, com representantes do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, com pesquisadores universitários, com organismos internacionais, entre outros momentos. A combinação que eu aspirava era a ‘ideal’ também para a confiança na representação institucional. A relação de ciência e política requer uma maneira peculiar de comunicação. Agradecimentos aos bons momentos da disciplina de informática, nos quatro anos do curso de Secretariado; principalmente às aulas de Tecnologias da Informação, às aulas gráficas no Excel.


Do mesmo modo, sigo o desafio no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também como pesquisadora, na Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest). Participo do projeto “O que informa as políticas públicas federais brasileiras: o uso e o não-uso de evidências”. Inicialmente, meu papel era assessorar a construção de um survey. Mais especificamente, tinha de ler inúmeras produções científicas internacionais, já que no Brasil pouco se trabalha o tema, e organizar uma maneira de apresentar, suscintamente, todo o debate internacional, tanto no que diz respeito aos métodos quanto às bases teóricas recorridas, e apresentar os caminhos que tínhamos de percorrer. Isso requer uma capacidade absurda de síntese de informação em forma de proposta de pesquisa, em um espaço de tempo muito curto. Aqui é espaço também para agradecer à formação em língua estrangeira que obtive no curso de Secretariado.


Na fase do teste do survey, fui designada a entrevistar servidores civis em diversos Ministérios do Governo, a fim de colher percepções e identificar as fragilidades do instrumento de pesquisa. Mais uma vez, a justificativa era a capacidade em articular bem a comunicação situacional com diversas hierarquias e setores do Governo, além da capacidade de identificar tecnicamente (no instrumento de pesquisa) as opiniões e dificuldades apresentadas pelos entrevistados. Posteriormente, foi-me confiado o papel de atender, via e-mail ou telefonema, em direcionar a burocracia federal no processo de preenchimento do survey. Atualmente, estamos na fase de análise dos dados e tentando parceria com o Tribunal de Contas da União (TCU) para levantar o mesmo tema com auditores na sua relação com gestores públicos no processo de políticas públicas.


Há muitas outras oportunidades na ciência que habilidades e competências que a área de Secretariado me proporcionou, a exemplo da responsabilidade em coletar e organizar as informações para a construção do relatório mais importante de Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu no Brasil: o relatório anual da Capes. No âmbito do Programa da qual sou parte, a coordenadora me convidou para a tarefa, na justificativa de que gostava da maneira como eu “organizava as ideias” na aula dela e do modo como eu as expressava. “É que minha formação de base é Secretariado Executivo”, informei. “Está explicado”, disse ela. Desde então, o colegiado do Programa considera que estamos produzindo um dos melhores relatórios do Programa, desde a sua fundação, graças à capacidade de coleta e organização de informações relevantes para a construção do instrumento.


Toda a minha aventura na ciência e na assessoria científica têm raízes no Secretariado. Quer dizer, não importa qual o caminho inusitado que almeja perambular, o Secretariado vai diferenciar você, inclusive se (talvez somente se) souber extrair bem as bússolas para guiar o percurso, e se tiver sabedoria e perspicácia para escolher pessoas e abordagens para ajudar você a concretizar as suas aspirações profissionais por aí.

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